Texto escrito por Cleuton Lima Miranda
Dando
continuidade à nossa série sobre a vida enigmática do sagui-da-serra-escuro, Callithrix
aurita, chegou a hora de descobrirmos o que realmente entra no cardápio
desses pequenos primatas ameaçados que ainda resistem nas matas de São José dos
Campos.
E
já começamos quebrando um mito bastante comum: saguis não vivem de banana.
Apesar
de muita gente associar esses animais às frutas oferecidas por humanos, nossas
observações de campo mostram uma alimentação muito mais rica, variada e
importante para o equilíbrio da floresta. Durante o monitoramento dos grupos em
fragmentos urbanos e periurbanos de SJC, registramos indivíduos alimentando-se
de jabuticabas, brotos, cigarras, insetos encontrados em flores e até buscando
água diretamente em córregos da mata.
Algumas
observações chamaram bastante atenção. Em uma delas, enquanto parte do grupo
consumia frutos em uma árvore, uma fêmea carregando filhotes procurava pequenos
insetos entre as flores, mostrando como esses primatas aproveitam diferentes
recursos ao mesmo tempo. Também registramos adultos compartilhando alimento com
os filhotes, que se deliciavam com cigarras, frutos e outros itens alimentares
encontrados na mata. Esse comportamento é extremamente importante para
aprendizagem alimentar dos jovens e fortalecimento dos vínculos sociais do
grupo.
Mas
nem tudo é tranquilidade durante a alimentação. Também observamos indivíduos
oportunistas esperando outro sagui conseguir alimento para então tentar
“furtar” pequenos pedaços. Sim… aparentemente existem saguis “espertinhos” em
São José dos Campos também.
Outro
ponto interessante é que alguns grupos chegaram a ignorar alimentos deixados
próximos às áreas de observação, preferindo continuar buscando recursos
naturais da floresta. E isso talvez seja uma das mensagens mais importantes do
nosso trabalho: a floresta já oferece tudo aquilo que os saguis precisam para
sobreviver.
Árvores
nativas, flores, insetos, córregos e a própria biodiversidade da Mata Atlântica
sustentam esses pequenos primatas há milhares de anos. Por isso, se realmente
quisermos ajudá-los, o melhor caminho não é oferecer comida, mas sim preservar
as matas que ainda existem e plantar árvores nativas que ampliem os recursos
disponíveis e a conectividade entre os fragmentos florestais (manchas de matas).
E
aqui fica um alerta importante: oferecer banana ou qualquer outro alimento pode
causar sérios problemas à saúde desses animais, além de alterar o comportamento
natural, aumentar disputas entre grupos e favorecer transmissão de doenças.
Por
isso, se encontrar um sagui nas matas ou bairros de SJC, admire de longe.
Respeitar o espaço desses pequenos moradores da Mata Atlântica continua sendo
uma das formas mais importantes de ajudar na conservação da espécie.
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